Notícias de uma guerra inventada

Anderson Barreto Moreira

Em 03 de janeiro de 2020 os serviços secretos estadunidenses e israelense assassinaram Qasen Soleimani, major-general da Guarda Revolucionária Iraniana que coordenava as forças da resistência contra o Estado Islâmico na Síria e região. Um mundo em estado de alerta diante de uma possível guerra respirou aliviado quando, por decisão do próprio governo iraniano e apoiado pela Rússia, a guerra não ocorreu. Dois meses depois a pandemia ocupou a cena e agora, dois anos depois, num mundo que parece exausto do continuum inaugurado em 2020, os tambores da guerra imperialista batem novamente, desta vez em direção à própria Rússia, se valendo da cabeça de ponte criada em 2014: a Ucrânia.

            Olhar o período histórico pode nos ajudar a ver o quadro maior da insanidade de um império que empurra a segunda maior potência nuclear e militar do planeta – a Rússia – para uma posição de tensão máxima e preparação para a guerra. A derrota da União Soviética em 1991 e sua consequente desintegração – lembremos que a mesma era composta por 15 repúblicas – ainda merece uma maior atenção e estudo, dado as brutais consequências econômicas e sociais pelo que passaram. Diante daquela conjuntura, o avanço dos Estados Unidos, através da OTAN, incorporando países do leste europeu e dos Bálcãs era inevitável para uma Rússia incapaz de qualquer reação, mesmo que tenha mantido boa parte de seu arsenal nuclear da era soviética. Passados 30 anos, os Estados Unidos e parte de seus aliados europeus parecem não aceitar a nova configuração mundial, que já é praticamente irrefreável por meios econômicos e diplomáticos. Não apenas a Rússia se reergueu como também construiu uma aliança estratégica com a nova potência do planeta: a China. Ambos os países estão reorganizando a Eurásia com um conjunto de medidas em todos os níveis – político, econômicos e militares.

            O controverso atual presidente russo, Vladimir Putin, um ex-agente da KGB que carrega o discurso nacionalista-patriótico que marcou a própria Rússia soviética, já em 2008 sinalizou os novos rumos do país quando foi à guerra contra a Geórgia após esta tentar tomar os territórios da Ossétia do Sul. Acontecimentos distantes e com nomes não comuns que passaram despercebidos. Porém, foi em 2015 que de fato a Rússia decidiu retomar seu papel como potência mundial ao atender ao pedido de ajuda do governo sírio na guerra contra o Estado Islâmico – financiado e apoiado pela Arábia Saudita e Estados Unidos, principalmente. Em pouco tempo, a atuação conjunta entre militares russos, sírios, iranianos e Hezbollah – estes dois sob o comando de Soleimani – impôs a derrota ao EI e, hoje, a Síria luta para recuperar partes do seu território sob controle dos Estados Unidos e Turquia principalmente.

            O ano de 2015 não foi aleatório: um ano antes, a União Europeia e Estados Unidos apoiaram abertamente um golpe de estado na Ucrânia que derrubou um governo eleito que pretendia estreitar relações com o bloco eurasiático e colocou uma extrema-direita abertamente nazista e antirrussa no poder. Como consequência, partes do leste ucraniano se declararam repúblicas autônomas e, após um plebiscito, a Crimeia, território russo dado como presente em 1954 pelo então líder soviético Nikita Khrushchev, voltou a pertencer a Rússia. De fato, a Ucrânia é hoje um país em desintegração que se tornou um aríete para a provocação do chamado “bloco ocidental”. Isso tem como fundo a desesperada tentativa de estrangular economicamente a Rússia através do bloqueio da venda de seu gás natural. O problema é que isso ocorre à custa de aliados importantes, como a Alemanha e outros na Europa que dependem do gás russo para que suas indústrias possam ter energia barata e serem competitivas, e suas confortáveis casas não congelem no rígido inverno.

            Essa quantidade de eventos que marcaram essa longa transição, que os Estados Unidos e União Europeia se negaram a aceitar, parece ter chegado a um ponto de mudança qualitativa neste início de 2022. A Rússia reivindicou um compromisso por escrito de que a Ucrânia não se tornará membro da OTAN, além de outras garantias em relação aos países da Ásia Central e que faziam parte da URSS. Como resposta, duas semanas antes do início das conversações, em 6 de janeiro, viu um dos principais países da região e seu vizinho– o Cazaquistão – ser abalado por uma tentativa de regime change, após uma crise social causada pelo aumento do preço do gás, que logo foi direcionada contra o governo que mantém boas relações com a Rússia. A resposta foi o Cazaquistão acionar a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, da qual faz parte junto com Rússia, Armênia e outros. Com isso, efetivos militares liderados pelos russos atuaram para estabilizar o país.

            Ao mesmo tempo, o governo estadunidense e seus aliados inundaram as mídias ocidentais com notícias de uma suposta invasão russa à Ucrânia. Até agora, nada mais é do que uma justificativa para os Estados Unidos fazerem exatamente aquilo que os russos denunciam: enviar armamentos e apoio para a Ucrânia, que passou a pedir ajuda internacional contra a “invasão russa”. As conversas entre o Secretário de Estado estadunidense, Antony Blinken, e Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia, apenas confirmaram a cegueira e arrogância do império: exigiu que os russos retirem suas tropas que estão dentro das próprias fronteiras russas. Diante da negativa sobre qualquer compromisso legal para as suas exigências, o governo Putin parece estar se preparando para uma possível guerra, uma guerra inventada, baseada em mentiras para que essa própria guerra se torne realidade. Os esforços para impedi-la ainda estão na mesa, ainda que cada vez mais enfraquecidos. Coincidências ou não, lembremos que veio da Rússia uma das mais brilhantes análises sobre a natureza do que estamos presenciando: no Imperialismo, etapa superior do capitalismo, guerra e capital sempre estiveram lado a lado.

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