A realidade sempre cobra seu preço

Anderson Barreto Moreira

Não é novidade que diante de situações complexas e cheias de incertezas exista uma tendência no imaginário social de encontrar “estabilidade” para poder seguir adiante. Passados três meses do início da guerra entre Estados Unidos e aliados contra Rússia, cuja o palco atual é a Ucrânia, a “normalização” da guerra esconde a realidade de um mundo convulsionado, com constantes escaladas de tensão. Reduzir o que se passa a breves informes nos noticiários, sempre com o “inimigo russo” cometendo suas atrocidades, nos impede não apenas de avaliar a realidade, mas também de pensar alternativas. Afirmar que o que se passa é “algo distante de nós” e que, portanto, não merece tanta atenção, é um grave erro.

Qual seria o impacto de uma dissolução da União Europeia tal qual conhecemos? Essa pergunta, que poderia soar como delírio duas décadas atrás, hoje já se apresenta como uma possibilidade real. A União Europeia nunca se configurou como uma união entre os povos, era, antes de tudo, um grande pacto das burguesias europeias para manter certa estabilidade depois de meio século de guerras que acabaram na catástrofe da Segunda Guerra Mundial. Se ideologicamente a criação da OTAN em 1949 atendia ao esforço de conter o comunismo soviético, do ponto de vista concreto ela representou  a consolidação do controle militar dos Estados Unidos sobre a chamada Europa Ocidental. Basta lembrar da recente afirmação do secretário-geral da OTAN de que o continente abriga cem mil soldados norte-americanos em suas dezenas de bases. Ao atrelar sua existência à manutenção da hegemonia dos Estados Unidos como potência imperialista, a União Europeia  inevitavelmente sofrerá os impactos da perda relativa dessa hegemonia. 

É exatamente isso que está ocorrendo agora. Do contrário, não assistiríamos a tomadas de decisões que não fazem sentido nem no curto prazo, muito menos estrategicamente. A crise energética já é uma realidade, com preços que atingem recordes diários, ameaçando, por exemplo, que um quarto da população do Reino Unido fique sem energia no inverno que se aproxima nos próximos meses. Mas não apenas na Europa essa crise é real, mundialmente ela vem se agravando, levando países do sul global, como Sri Lanka, a entrar em colapso pela falta de petróleo, literalmente paralisado pela falta de combustíveis e pela fome. A crise alimentar mundial, que já havia sido agravada pela pandemia da Covid, adquiriu um novo patamar com as sanções impostas à  Rússia e Belarus, dois grandes produtores de grãos, junto com a Ucrânia, e fertilizantes. Agravando a situação, a China mantém uma forte política de controle da Covid, com o fechamento de importantes cidades e portos, o que tem levado à interrupção de inúmeras cadeias de suprimentos ao redor do mundo. 

E qual tem sido a resposta das lideranças ocidentais diante deste incêndio fora de controle? Obviamente, alimentar as chamas com mais US$ 40 bilhões  para prolongar a guerra. Para que tenhamos uma ideia, em 2021 a Ucrânia anunciou um orçamento para defesa de US$ 5,4 bilhões. Ou seja, os 40 bilhões atuais somados aos outros 20 bilhões fornecidos em parceria com a União Europeia equivalem a praticamente 10 anos do orçamento de defesa da Ucrânia. Os Estados Unidos e aliados, apesar de negarem, estão promovendo uma proxy war (guerra por procuração), e pretendem lutar “até o último ucraniano”. Porém, as vitórias do ocidente só existem na versão digital, na constante propaganda, que transformou a rendição de mais de dois mil neonazistas do Batalhão Azov, que estavam nos subterrâneos da enorme planta metalúrgica de Azovstal em Mariupol, numa “retirada organizada” dos “heróis” que “cumpriram sua missão”. O mesmo vale para o metódico e esmagador avanço russo na região do Donbass, onde uma série de derrotas do exército ucraniano estão ocorrendo em importantes cidades, levando a um número cada vez maior de deserções.

Prever o fim do conflito nesse momento seria mera especulação, mas é certo que quando este momento chegar a Ucrânia como tal não mais existirá. Não apenas no campo militar a Rússia colhe vitórias: o rublo se tornou uma das moedas mais fortes do mundo, atingindo os melhores patamares em relação ao dólar e ao euro nos últimos 5 anos. Isso porque, como dissemos, as sanções impostas pelos EUA, e acatadas pela Europa, prejudicam centralmente esta última. 

Diante das constantes derrotas de caráter estratégico, a OTAN/EUA buscaram alguma vitória para chamar de sua: romper a neutralidade de décadas da Suécia e da Finlândia, jogando por terra o mito de que os chamados “países nórdicos” são um modelo de sociedade pacífica e desenvolvida a ser seguido pelo mundo. Com o discurso de que a Rússia planeja “uma expansão” em direção aos territórios que em algum momento já tenham pertencido ao Império Russo, promoveram um verdadeiro espetáculo para celebrar os pedidos de adesão. A neutralidade era a garantia de segurança, principalmente para Finlândia, já que em troca da sua neutralidade, a Rússia desmilitarizou seus mais de 1.300 Km de fronteira com esse país. Apesar do espetáculo, a aceitação precisa ser por unanimidade pelos membros da OTAN e Turquia, Croácia e Hungria já se manifestaram contra. A Turquia afirmou com veemência que não aceitará a entrada dos dois países, inclusive apresentando uma lista de pedidos que são praticamente impossíveis de serem atendidos: fim das sanções contra o sistema de defesa aéreo S-400 adquirido da Rússia e o retorno ao consórcio para adquirir os caças de 5ª geração F-35 dos EUA. Com isso, já se levanta a possibilidade de expulsar a Turquia da OTAN, para facilitar a entrada de Suécia e Finlândia. A Rússia já deixou claro que, ao ingressar na Organização, todas as medidas podem ser tomadas, inclusive as “técnico-militares”. Basta lembrar que foram essas as palavras ditas antes do início da atual operação militar na Ucrânia para ver que não se trata de blefe. A Rússia já deixou claro que está em guerra contra a ordem mundial unipolar liderada pelos Estados Unidos e o discurso do dia 9 de Maio, dia da vitória contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, mostrou que também boa parte da população russa apoia a guerra.

A quantidade – e profundidade – dos eventos que temos assistido diariamente ao longo dos últimos meses nos impõem a questão de qual será o papel do Brasil nessa nova época da história. A China assumiu o papel de propor uma nova arquitetura diplomática e institucional ao declarar que o BRICS será ampliado, podendo inclusive substituir o G-20, e buscando interligá-lo com a Organização para Cooperação de Xangai. Se isso for alcançado, novas perspectivas para o futuro dos povos estarão postas. A questão é: qual será a resposta do bloco ocidental que predominou nos últimos 250 anos? Incertezas, e não estabilidade, compõem a realidade atual.

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