Era uma vez um ocidente…

Anderson Barreto Moreira 

A economia ficará em ruínas, a crise levará a agitações sociais, problemas de abastecimento, perda da capacidade de sustentar a guerra, isolamento internacional e, por fim, a queda do governo: estas foram as profecias feitas pelos magos do ocidente contra a Rússia no distante fevereiro de 2022, quando a antiga ordem mundial ainda parecia inabalável. No mundo real, Boris Johnson já não ocupa o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido – foi convidado a renunciar –, Mario Draghi na Itália sofreu o mesmo destino; Macron venceu para presidente mas foi derrotado nas eleições legislativas na França; Olaf Scholz pediu para a poderosa economia alemã apagar as luzes, literalmente; o ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe foi assassinado durante a campanha e Joe Biden – que passa mais tempo criando constrangimentos para sua equipe com falas incoerentes e quedas frequentes – corre o risco de enfrentar um processo de impeachment caso se confirme a derrota parlamentar nas eleições de novembro. Enquanto isso, a Rússia avança sem problemas pelo território ucraniano e, junto com a China, promove uma agenda internacional frenética baseada na ampliação e consolidação dos seus blocos políticos, econômicos e militares. Diante disso, a pergunta que paira é: pode um bloco em franca fragmentação perdurar por muito tempo?

A reunião do G7, grupo que durante algumas décadas ditou as regras do mundo e reuniu as economias mais ricas, ocorreu na Alemanha, mais especificamente no castelo de Elmau, nos Alpes da Baviera. O local é simbólico: isolado, protegido por montanhas e incapaz de ouvir o mundo à sua volta. O encontro foi marcado esse ano por um tom crepuscular. Primeiro, porque boa parte do mundo pareceu não se importar muito em não ser convidado para a reunião, convite que há alguns anos atrás simbolizava o quanto um país tinha importância e prestígio no cenário internacional. Segundo, porque a pauta central foi algo que já ninguém mais parece acreditar: financiar a Ucrânia para que essa vença a guerra e enfraqueça a Rússia. Essa dissonância cognitiva pode ser vista na seguinte frase pronunciada por Boris Johnson: “Essas medidas [proibição da importação do ouro russo] atingirão diretamente os oligarcas russos e atingirão o coração da máquina de guerra de Putin”. Depois disso, a Rússia anunciou a completa liberação da região de Luhansk, no Donbass. 

Longe dos Alpes, sem castelos e com muitos convidados, os chefes das finanças do G20 se reuniram em Washington. A próxima cúpula ocorrerá em novembro na Indonésia, país que carrega o símbolo de ter sediado a Conferência de Bandung, em 1955. Os Estados Unidos e aliados pressionaram para que o encontro não tivesse a presença de Vladimir Putin, mas os anfitriões já avisaram que o presidente russo está convidado, como tem se tornado frequente em vários fóruns mundiais. A reunião em Washington sinalizou a centralidade que a reunião de novembro terá. Há uma clara divisão no que diz respeito à guerra em seus motivos e saídas, e sobre como deve ser o mundo daqui para frente. Aparentemente, fora do castelo, o mundo gira em outra órbita. 

Enquanto Biden buscava explicar sua visita de negócios, petróleo, à Arábia Saudita – país que criticou durante a campanha pela morte e esquartejamento de um jornalista opositor do regime do príncipe Mohmmed bin Salman na embaixada saudita na Turquia – em Teerã um encontro histórico pode ter selado um novo caminho para as questões do Oriente Médio. Além de Putin, o presidente iraniano Ebrahim Raisi recebeu o presidente turco Erdogan para debater três temas: o conflito na Síria e sua resolução, o desbloqueio dos grãos que estão parados nos portos ucranianos devido à guerra e o apoio iraniano à Moscou no conflito com a Ucrânia. 

Com relação à Síria, ao que tudo indica, os turcos concordaram em não manter as constantes incursões no país vizinho, deixando de alimentar um conflito que só beneficia os grupos terroristas financiados pelas potências estrangeiras, segundo o presidente iraniano. A busca pela estabilidade na Síria  se insere no quadro maior de incorporá-la tanto à Nova Rota da Seda, proposta pela China, quanto ao projeto da grande Eurásia liderado pela Rússia. Isso porque a Síria e seus portos no Mediterrâneo são fundamentais para a construção de novas rotas comerciais. Quanto ao desbloqueio dos grãos, Erdogan e seu país se tornaram os garantidores, junto com o presidente da ONU, do acordo que acaba de ser assinado por russos e ucranianos. O escoamento dos grãos pelos portos que hoje são controlados pela Rússia só não ocorreu anteriormente, segundo os russos, devido às minas submarinas instaladas pelos ucranianos em seu litoral. Já o apoio iraniano rendeu vários acordos, dentre eles o provável fornecimento de drones militares à Rússia, o que demonstra o avanço tecnológico iraniano mesmo sob severo bloqueio. Aliás, o Irã já declarou que pode produzir urânio enriquecido capaz de ser usado em armas nucleares, porém, afirma que não o fará porque não é do seu interesse.

Poderíamos seguir aqui com uma extensa lista da frenética agenda que China, Rússia, Índia, Turquia, Irã e outros países euroasiáticos têm promovido nos últimos meses, todos caminhando na mesma direção: a estruturação não de um novo bloco apenas, mas de uma nova ordem mundial. Cada vez mais o castelo no alto da montanha e seus visitantes vão se tornando uma paisagem do velho mundo. 

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