Uma nova oportunidade para o sul global

Anderson Barreto Moreira

Bandung, Indonésia, abril de 1955: representantes de 29 países da África e Ásia se reuniram para debater seu papel num mundo marcado pela bipolaridade da guerra fria, permanência do colonialismo e agressões imperialistas. Dois anos antes, a península coreana havia sido dividida em duas após uma sangrenta guerra que tirou a vida de mais de dois milhões de pessoas, num conflito em que a ameaça do uso de armas nucleares pelos Estados Unidos foi uma constante. Foi o primeiro choque entre a potência capitalista e a jovem República Popular da China, que em 1949 havia feito sua revolução socialista. Um ano antes da Conferência de Bandung, também no leste asiático, o Vietnã travou uma luta heroica que resultou na expulsão da França, país que havia colonizado a região ainda no século XIX. 

O resultado da Conferência foi a elaboração de dez pontos que, entre eles, demandavam “respeito aos direitos fundamentais e à soberania e integridade territorial de todas as nações, o princípio da não intervenção e não ingerência ; respeito pelo direito de cada nação defender-se ; e estímulo à cooperação”. Tendo como referência a Carta das Nações Unidas, estes países deram origem ao chamado Movimento dos Não-Alinhados, que questionavam a necessidade de pertencer de modo compulsório a qualquer um dos blocos majoritários da guerra fria, liderados pelos Estados Unidos e União Soviética.

Havana, Cuba, 1966: 82 delegações desembarcaram na ilha que em 1959 ousou desafiar o império e havia se tornado a estrela maior na constelação das lutas de libertação nacional que se desenrolavam também nos continentes africano e asiático. Por articular os três continentes passou para a história como a Conferência Tricontinental. Uma miríade de movimentos, partidos, organizações, grupos guerrilheiros e intelectuais do então chamado “Terceiro Mundo”, com diferentes matizes – desde os marxistas até os nacionalistas-revolucionários, ou uma fusão de ambos como no caso cubano – debateram como as lutas de libertação e anticoloniais estavam profundamente interligadas com o anti-imperialismo e a construção do socialismo. Cuba, a anfitriã, era a prova viva dessa perspectiva. Um dos principais resultados da Tricontinental foi a criação da OSPAAAL, que teve forte presença e atuação nas décadas que se seguiram. A Conferência Tricontinental permanece como o maior encontro realizado pelos povos em luta do sul global.

O que estas conferências – apesar de guardarem entre si importantes diferenças programáticas – têm a nos dizer no presente? Já destacamos que ambas ocorreram dentro de uma ordem mundial estabelecida após 1945 com o fim da Segunda Guerra Mundial. A Guerra Fria, em que pese a supremacia dos Estados Unidos, contou com a União Soviética como contrapeso na balança de poder mundial que, apesar dos erros na relação com os países do “terceiro mundo”, freava o ímpeto imperialista de dominação. Tal contexto abriu margens para as inúmeras lutas que marcaram os anos 1960-1970 nos três continentes – Ásia, África e América Latina. 

As duas conferências foram resultado da condensação de determinados princípios que podemos incorporar às lutas atuais: sem soberania e articulação intercontinental das lutas, inevitavelmente seremos impelidos a uma posição subalterna nos blocos que as grandes potências estão estruturando. Assim como Bandung e a Tricontinental, precisamos definirquais princípios são fundamentais no estabelecimento de alianças. Talvez o resgate da ideia de soberania – destroçado pelo capitalismo financeiro “sem fronteiras” a partir dos anos 1990 – seja um primeiro passo. Concomitante a isso, o resgate de uma agenda anti-imperialista, que só será viável se a soberania – a capacidade de tomar decisões e levar adiante sua implementação – for uma realidade. Terceiro, nem a conquista da soberania, nem as lutas anti-imperialistas serão possíveis sem a solidariedade internacional. 

Recentemente, tivemos sinais dessa solidariedade quando o presidente mexicano López Obrador, em solidariedade a Cuba, Venezuela e Nicarágua, se recusou a participar da fracassada 9ª Cúpula das Américas convocada pelos Estados Unidos . As eleições colombianas animaram o continente com a vitória histórica da esquerda para a presidência daquele país, nas figuras de Gustavo Petro e Francia Márquez. Agora, além da histórica Cuba, Colômbia, Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Venezuela e México também são governadas por forças de esquerda ou centro-esquerda. Ainda que com programas distintos, e mais moderados em relação à onda anterior do início do século XXI, estas novas forças democráticas e progressistas demonstram que o projeto neoliberal-fascista não encontra apoio na maioria dos povos da região. Por isso, as eleições no Brasil em outubro serão decisivas para a retomada urgente da integração regional. Unasul, Celac, Alba, Conselho de Defesa Sul-Americano são experiências que podem indicar caminhos, assim como outras podem ser construídas. Mas não basta apenas a integração institucional: é preciso que as forças populares retomem a discussão sobre qual projeto queremos não apenas para a América Latina, mas também para os povos do mundo. 

Estamos diante de um momento de transição na ordem mundial, acelerada pela decisão da Rússia e da China de enfrentar as ameaças aos seus projetos e áreas estratégicas de sobrevivência. O enfraquecimento atual dos Estados Unidos e aliados abre possibilidades que antes estavam bloqueadas, o que recoloca a importância histórica das experiências de articulação dos países não alinhados do século passado. Porém, os desafios agora são maiores e mais perigosos. A 14ª Cúpula do BRICS assumiu o desafio de se expandir e, mais importante, colocou em discussão a criação de uma “cesta de moedas” que possibilite abandonar o dólar a médio prazo como dinheiro mundial. Está aberto o caminho para um novo encontro dos povos do sul global, um encontro com o que de melhor tivemos com as experiências do passado e com os desafios do presente. Somente com integração e solidariedade poderemos navegar pelos atuais mares turbulentos do mundo em transição.

NOTAS:

  1. O “Primeiro mundo” designava os países do bloco capitalista, o “Segundo Mundo” pertencia ao antigo bloco socialista. Esta divisão perdurou durante toda a guerra fria, perdendo força na entrada da década de 1990 devido à derrota do “Segundo mundo”.
  2. Organização de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina.

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