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Instituto de Estudos Contemporâneos

Clemente Ganz Lúcio: “O mercado não articula estratégias de desenvolvimento, cabe ao Estado esta iniciativa”

Clemente Ganz Lúcio: “O mercado não articula estratégias de desenvolvimento, cabe ao Estado esta iniciativa”

O professor Clemente Ganz Lúcio, sociólogo e diretor técnico do Dieese é o terceiro entrevistado da série do Front sobre a desindustrialização e o papel da indústria em um projeto nacional.

Hoje fala-se muito em economia de serviços e de um novo ciclo econômico baseado no uso do aprendizado de máquinas. Há ainda possibilidade histórica dentro do capitalismo para um novo ciclo de industrialização no Brasil? Ou no estágio de desenvolvimento atual é necessário abandonar esta referência e o pensar um outro parâmetro de desenvolvimento?

As mudanças que estão se processando no sistema produtivo mundial são mudanças chamadas tecnológicas da quarta revolução industrial. Mas que são na verdade mudanças disruptivas em relação ao padrão de desenvolvimento tecnológico até então mobilizado pelo sistema produtivo desde meados do século XIX no qual o padrão tecnológico permitia com que cada vez mais o trabalho morto pudesse substituir a força de trabalho humano, o braço do trabalhador. Era, pois, uma tecnologia fortemente impactante da estrutura produtiva industrial. A quarta revolução industrial significa o uso dessa capacidade de agregação de conhecimento em máquinas, mas agora com uma mudança disruptiva que é a capacidade dessas máquinas atuarem com um tipo de inteligência, chamada inteligência artificial. Esta é a capacidade das máquinas simularem o pensamento humano, armazenarem conhecimento e principalmente a capacidade de aprender. Acumula, aprende e portanto têm capacidade de estruturar uma tecnologia que é disruptiva em relação à anterior. Porque elas podem não só substituir a atividade humana física como também a atividade humana de processamento de conhecimento, de aprendizado e também de interação.

Isso abre uma possibilidade inédita da indústria, ou seja, da capacidade tecnológica ocupar todas as atividades humanas e transformá-las em atividades econômicas, mediadas pelo equipamento, pela máquina e pela inteligência artificial que é uma capacidade operada também por uma máquina. Essa alteração da capacidade produtiva espraiada por todos os segmentos econômicos, por todos os setores, por todas as atividades econômicas, altera de forma estrutural o sistema produtivo que, na base de uma tecnologia que hoje permite produção de energia com autonomia e independência de cabeamento e de fonte. Uma transformação da energia solar em energia infinita para uso humano. Segundo, a possibilidade da conexão em tempo real em termos de comunicação também sem nenhum tipo de cabeamento. Isso confere alterações na estrutura produtiva da transporte, da comunicação e da autonomia energética que, combinada com a tecnologia da inteligência artificial dá a possibilidade de uma reorganização radical de todo o sistema produtivo. E isso, de alguma maneira, impactará a estrutura global do sistema produtivo. Abre novas possibilidades de globalização, de integração, de comércio, de estruturação logística. As mudanças são disruptivas de forma multidimensional.

A grande questão que está posta para um país como o Brasil olhando para esta dinâmica é: Qual é o projeto de desenvolvimento econômico capaz de conferir à nossa estrutura econômica uma capacidade de organizar um sistema produtivo que coloque neste território e para esta população a oportunidade de um desenvolvimento econômico, de um desenvolvimento social em que uma organização societal seja capaz de usufruir de um padrão de desenvolvimento para gerar bem-estar, qualidade de vida, e assim por diante?

Olhando para esta mudança disruptiva que está posta, ela significa a capacidade de industrializar todo o processo produtivo no setor industrial, mas principalmente no setor de serviços, no comércio, na agricultura, nos serviços públicos. Tudo isso significa que, de um lado, há uma base industrial permeando as atividades econômicas em todos os setores. Portanto, há uma base industrial em expansão. Uma base industrial que passa a ser meio de mediação de relações sociais de produção. Uma diminuição do trabalho humano e uma ampliação do trabalho morto feito pelas máquinas. E uma capacidade das máquinas ocuparem cada vez mais o espaço da atividade humana na produção. Significa portanto uma mudança radical no sistema produtivo e uma demanda por base industrial crescente para a qual o país, o Brasil, deveria estar integrado, precisa estar integrado. De um lado, para usar dessa tecnologia para reorganizar o seu sistema produtivo, e de outro, ser um agente econômico capaz de participar dessa produção industrial, seja naquilo que esteja diretamente atinente às suas atividades, a organização do seu sistema produtivo, seja para operar nossa capacidade de transformação industrial a partir dos ativos que nós detemos no país.

Nesse sentido, um projeto de desenvolvimento para o Brasil é um projeto de desenvolvimento industrial. Portanto a industrialização é parte essencial de um projeto de desenvolvimento. Industrialização nesse sentido de oferecer a base tecnológica para todos os segmentos e setores econômicos e principalmente para aqueles setores e para aquelas atividades que são, digamos, as nossas atividades que podem suscitar tanto a nossa presença tecnológica de ponta em setores que são estratégicos e que o país detém tecnologia, seja para a industrialização dar conta de promover e dar suporte às mudanças estruturais que nós queremos fazer. Por exemplo, é possível imaginar um projeto de desenvolvimento econômico cuja reorganização e atualização e modernização de toda estrutura urbana, no nosso espaço urbano, represente uma estrutura numa cadeia produtiva no setor da construção muito ampla aonde a base industrial produz os insumos para este processo de reorganização da estrutura urbana, como uma grande cadeia de estruturação de uma base industrial voltada para uma modernização do espaço urbano, já que mais de 80% da população brasileira hoje vive no espaço urbano.

Todas as tecnologias associadas a todos os serviços urbanos, desde o transporte, o saneamento, abastecimento de água, todos os serviços associados aos sistemas que compõem a vida urbana, significa uma base industrial monumental que pode ser acionada e que o Brasil detém tecnologia que não poderia ser jogada fora por exemplo com a destruição de empresas como a Odebrecht e outras que estão sendo atacadas nessa base do setor da construção. Se nós imaginarmos, por exemplo, toda a infraestrutura econômica em termos de transporte, energia, comunicação, isso tudo exige uma plataforma de investimento em infraestrutura econômica que também mobilizam a indústria da construção. Se nós olharmos a base do nosso território do ponto de vista da produção de alimentos, nós temos não só uma riqueza pra desenvolver tecnologia e fazer o solo se tornar cada vez mais produtivo e ao mesmo tempo preservar suas qualidades e de outro lado a industrialização desses alimentos e a oferta para o planeta da demanda crescente por alimentos. Ela é uma área que o Brasil já tem ponta do ponto de vista tecnológico e poderia ser grandemente utilizado para o nosso desenvolvimento industrial. A área saúde é uma outra área que o Brasil tem tecnologia também que deveria ser expandida. Se nós olharmos o setor de turismo ele implica em um conjunto de ofertas de serviços para as diferentes populações em faixas de idade diferente e usando o espaço do nosso território para desenvolver uma base da indústria do turismo conectada com outras estratégias de desenvolvimento local. Se nós olharmos a capacidade que o território tem de oferecer, a partir da base da energia solar e da energia eólica, uma capacidade de produção de energia e de tecnologia para oferecer essa autonomia de produção no território no Brasil e no mundo uma outra base de expansão.

Isso a título de exemplos de bases cujo desenvolvimento econômico exige uma dimensão industrializante fundamental. Eu diria que não é possível nós imaginarmos um projeto desenvolvimento econômico para o Brasil que não inclua uma inserção industrializante que estruture esta estratégia de desenvolvimento. E isso requer de um lado uma capacidade do Estado mobilizar recursos e coordenar um processo de investimento e ao mesmo tempo mobilizar e coordenar este processo de investimento também mobilizando recursos privados e portanto a relação entre Estado e setor privado, exige inclusive instituições capazes de coordenar e mobilizar de forma adequada este tipo integração e cooperação.

Que tipo de possibilidades a ascensão da China como centro de um novo polo de acumulação no oriente abre para a retomada da industrialização no Brasil?

A China representa oportunidades e desafios. É evidente que o mercado da China é demandante de coisas, especialmente minérios e alimentos que o Brasil pode oferecer. E é evidente que esta relação econômica deveria vir acompanhada de uma intencionalidade de ampliar a nossa capacidade de industrializar essa base de produtos primários na exportação para a própria China, o que não é um acordo fácil de ser construído. De outro lado, a China oferece também a possibilidade de cooperação tecnológica, seja pelas empresas aqui se instalando, seja de cooperação tecnológica para que as empresas brasileiras possam dar saltos do ponto de vista do uso desta tecnologia e da internalização dessa base para os nossos sistemas produtivos, especialmente na base industrial. Há todo um investimento em infraestrutura urbana e infraestrutura econômica que o Brasil pode também se apoiar na base do que eles estão desenvolvendo. Há recursos, e portanto podem mobilizar capital para investimento aqui no Brasil. Há toda uma discussão sobre a internacionalização da nossa economia e a presença de capital crescentemente na base do nosso sistema produtivo. A China é um dos países que vem ocupando esses espaços e isto afeta evidentemente em grande medida, não só com a China mas com todos os demais países, o debate sobre a relação entre a presença deste capital e a predominância dessa capacidade produtiva controlada por este capital e a nossa soberania para o desenho do desenvolvimento econômico, para sua coordenação e mobilização. Mas de todo modo a China é, na minha visão, um país com o qual o Brasil deve estreitar cada vez mais laços pensando a base do nosso território, o uso e as inovações que lá são feitas, o capital disponível para investimento e aquilo que o Brasil pode oferecer nas suas diferentes frentes de expansão de desenvolvimento econômico, também serviços e produção para ser exportada para a própria China, dada a amplitude do seu próprio mercado.

Sabemos que hoje as cadeias produtivas são internacionais. Quais são as possibilidades, as implicações políticas e o papel do Estado nacional brasileiro numa possível retomada do desenvolvimento industrial?

Todas as experiências históricas mostram que os países que deram saltos no padrão de desenvolvimento, portanto alçaram uma capacidade produtiva capaz de gerar incremento econômico e bem estar a partir da capacidade econômica ampliada. Fizeram isso, de um lado, com Estados capazes de coordenar uma política macroeconômica voltadas para o desenvolvimento econômico e social. Política esta orientadora de uma base industrializante, portanto viabilizadora do ponto de vista macroeconômico para o câmbio, uma política de crédito, uma política de juros, uma política de preços, uma política de investimento em inovação, em pesquisa, em tecnologia… Todas elas para um desenvolvimento industrial, para uma capacidade da indústria competir no mundo. Para uma capacidade da indústria ter estruturas produtivas que sejam inovadoras que estejam perseguindo a fronteira do conhecimento e de estruturar uma base de infraestrutura que é protagonizada pelo investimento público em termos de infraestrutura econômica, transporte, energia, comunicação… como bases que dão condições para o sistema produtivo se desenvolver.

De outro lado, o investimento público e do Estado em educação, na qualidade da educação em geral, a qualidade específica do investimento em pesquisa e em desenvolvimento tecnológico e uma cooperação com o setor privado para que esta tecnologia se transforme em inovação. Isso tudo combina uma política macroeconômica voltada para o desenvolvimento produtivo e um processo de industrialização, de outro, uma política macroeconômica voltada para uma estratégia distributiva deste desenvolvimento no território e uma estratégia distributiva para que a renda cresça, portanto os salários cresçam, os empregos de maior qualidade se ampliem. E isso gere um circuito virtuoso de incremento da produtividade, aumento da demanda e a sustentação de uma estratégia de crescimento de longo prazo e de transformação estrutural das bases do sistema produtivo e da organização da base da sociedade no espaço urbano como aquilo que estrutura uma estratégia de desenvolvimento. Tudo isso é Estado: Estado coordenando, Estado mobilizando, Estado regulando esse processo. Gerando capacidade das nossas empresas terem uma inserção global competitiva, cuidando do câmbio, cuidando dos juros, cuidando do crédito, cuidando do investimento em educação e em pesquisa. Isso é o Estado, e sem Estado não há esta coordenação. O mercado não faz este tipo de articulação. Cabe portanto ao Estado esta iniciativa. O Estado é um elemento fundamental para sustentar uma estratégia de desenvolvimento econômico.

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